domingo, 20 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010) - Desaparecimento de vulto para a literatura portuguesa


A morte de José Saramago, aos 87 anos, constitui uma perda irreparável para Portugal, para o povo português, para a cultura portuguesa.

José Saramago foi uma personalidade com uma dimensão artística e intelectual de um enorme relevo nacional e internacional, consubstanciado na sua notável e singular obra literária, reconhecida em 1998 com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, aliás o único Nobel literário atribuído à nossa língua.

Interveniente activo na resistência ao Estado Novo, o primeiro sinal de acção política de José Saramago data de 1948-49, no âmbito da candidatura do general Norton de Matos a Presidente da República, em oposição ao candidato do regime, o também general Óscar Carmona. O corajoso acto custou o emprego a Saramago na Caixa de Abono de Família da Indústria da Cerâmica. Só no ano seguinte conseguiu nova colocação, na Caixa de Previdência da Companhia Indústrias Metálicas Previdente.

A adesão ao PCP, acontecida em 1969, ano seguinte à da substituição de Salazar por Marcelo Caetano em São Bento

Saramago revelou-se, muitas vezes, incómodo, quando não provocador, para os poderes estabelecidos.

Em 1988 subscreve o Manifesto reformista da ‘Terceira Via’. onde três centenas de militantes do PCP que o fizeram reivindicavam maior democracia interna, em harmonia com os ventos da ‘perestroika’ soprados por Gorbachov na União Soviética.

Em 2002 causou clamor em Israel ao comparar “o espírito de Auschwitz - campo de concentração nazi - ao espírito de Ramallah [cidade palestiniana na Cisjordânia, ocupada por Israel”.

Mais recentemente dá novo sinal contrastante exprimindo apoio ao socialista José Luís Zapatero na corrida para renovação de mandato de chefe do Governo nas eleições legislativas espanholas de 9 de Março de 2008.

A nível literário: "A actividade Literária de Saramago é diversa - poesia, teatro e ensaio - mas expressa mais o seu talento nos romances. Desde o primeiro romance "Manual de Pintura e Caligrafia" (1977) que o autor escreveu já com 55 anos e "Levantado do Chão" (1980) que revelou o nome do escritor, o nome de José Saramago ganha maior valor cada vez que se edita nova obra. Numa dezena de anos tomou-se o escritor mais popular na literatura portuguesa e até um dos autores europeus que mais prémios internacionais da literatura recebeu. As suas obras são publicados simultaneamente em Portugal e no Brasil e muitas delas imediatamente traduzidas nas línguas europeias.

A maravilha da escrita de Saramago está, resumidamente, na capacidade que ele manifesta e na consideração sincera que exprime, ao abordar os problemas essenciais que as pessoas, a sociedade e a literatura contemporâneas enfrentam, tratando sempre temas totalmente diferentes.

De uma obra à outra Saramago expressa esses temas num estilo característico que diverte os leitores. Todas as obras são profundamente significativas, exprimem a confiança nos homens e atraem e dominam os corações dos leitores.

José Saramago ilumina a nova realidade histórica com a ideologia cruzando as vidas do povo oprimido e os acontecimentos históricos. Mais uma característica sua é ser o artífice da palavra utilizando à vontade a sua eloquência mimética do barroco, a imagem realista e pitoresca e o humor. Com este estilo próprio ele conta calmamente problemas sérios e histórias atrozes.

O melhor exemplo talvez seja o "Memorial do, Convento" (l982), que o divulgou internacionalmente, em que descreve o povo pobre forçado a construir um convento gigantesco sob o projecto do ditador D. João V, a vida luxuosa da corte, a execução dos hereges em frente da multidão excitada e a mulher vidente que retira as almas dos mortos para fazer um avião voar.

N’ "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (1991), obra que causou grande polémica e levou Saramago a emigrar para a ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias, o autor põe em questão o significado do pecado, o mito dos personagens e também problematizou o dogma da autoridade.

Não posso esquecer n’ "A Jangada de Pedra" (1986), a história fantástica em que a Península Ibérica larga o continente e flutua em direcção ao Ocidente. Reconhece-se a importância do amor na obra "Ensaio sobre a Cegueira" (1995), em que todas as pessoas cegam subitamente.

A sua mais recente obra é "Todos os Nomes" (l997). Há 5 anos que Saramago tem editado o seu diário sob o título de "Cadernos de Lanzarote". In Instituto Camões (Clicar)


Saramago utilizou a sua vocação para as letras para lutar pela justiça e decência humanas.

A frase: "Sem ou com o Nobel, o valor das minhas obras não se modifica"



Biografia Literária de José Saramago (Clicar)

Homenagem feita por vários actores brasileiros a José Saramago (Clicar)

Em homenagem a José Saramago, a selecção nacional de futebol, decidiu ouvir o hino no encontro com a Coreia do Norte, no Mundial de 2010, com fumos negros (Clicar)

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